«O gestor de viagens do futuro será um ator fundamental na estratégia empresarial»

«O gestor de viagens do futuro será um ator fundamental na estratégia empresarial»

Ana Olbés, especialista em viagens corporativas globais, analisa nesta entrevista como está mudando o papel do gerente de viagens em um contexto marcado pela digitalização, pela pressão dos custos e pelas exigências ESG. Com uma visão estratégica e centrada nos dados, na tecnologia e no bem-estar do viajante, ela defende a evolução do gestor de viagens corporativas para um perfil-chave na tomada de decisões.

Num contexto de digitalização, pressão pelos custos e exigências ESG, como acha que irá evoluir o papel do Gestor de Viagens dentro da estrutura das empresas nos próximos anos?

O Travel Manager do futuro desempenhará um papel fundamental na estratégia empresarial. A sua função evoluirá da gestão operacional para uma posição mais influente na tomada de decisões, coordenando tecnologia, eficiência e valor para o negócio. Será responsável por transformar dados em ações para otimizar gastos, garantir o uso inteligente de recursos e elevar a experiência do viajante como um ativo estratégico para a organização. Nesse cenário, o Travel Manager se consolidará como um líder capaz de equilibrar eficiência, inovação e cuidado com o talento, trazendo uma vantagem competitiva real.

Se tivesse que definir as prioridades críticas de um Travel Manager no início do ano, quais seriam para garantir o controle financeiro, a conformidade regulatória e uma experiência ideal para o viajante?

A primeira prioridade é garantir a qualidade dos dados desde o primeiro dia, porque sem dados limpos não há controlo financeiro nem argumentos sólidos perante a direção. Também é fundamental redesenhar o mapa de fornecedores, combinando custo, sustentabilidade e qualidade do serviço de acordo com as necessidades do viajante e a política da empresa, entendendo que as tarifas não são tudo. Outra linha essencial é revisar a política sem medo de questionar o que já não serve: deve ser um documento vivo, ágil e com processos de aprovação fluidos, alinhado com uma realidade em constante mudança. A isso se soma o impulso da tecnologia como uma aliada estratégica que elimina tarefas recorrentes sem valor e, apoiada na IA, libera tempo para o que realmente importa: fazer negócios. Por último, é essencial reforçar o Duty of Care emocional, acompanhando o viajante quando ele está longe, cansado ou vulnerável, ouvindo sua experiência real, pois seu bem-estar impacta diretamente na produtividade.

Com base na sua experiência, que erros estratégicos costumam cometer os gestores de viagens ao iniciar um novo exercício orçamental e como podem ser evitados desde o primeiro trimestre?

Um dos erros mais frequentes é aceitar o orçamento do ano anterior como base, sem verificar se ele ainda responde à realidade do negócio. Para evitar isso desde o primeiro trimestre, é conveniente revisar as tendências de demanda, mudanças organizacionais e previsões de negócios, além de analisar a previsão de variação de tarifas por região. Outro erro comum é negociar com pressa; nesse caso, a forma de se antecipar no primeiro trimestre passa por priorizar as categorias de maior impacto ? aéreo e hotel ?, alinhar o Procurement e o Travel para evitar atritos e lançar RFP ou revisões de contratos com antecedência suficiente antes do vencimento dos acordos. A comunicação interna também costuma ser subestimada: quando se explica o motivo das decisões e se envolve as partes, o cumprimento melhora naturalmente. Para isso, é útil criar um comitê de viagens com Finanças, Compras, RH, Segurança e Sustentabilidade, alinhando as expectativas antes do fechamento do orçamento. Em suma, o erro mais comum é negligenciar as relações com fornecedores, clientes internos e partes interessadas: juntamente com processos e tecnologia adequados, são eles que fazem o programa funcionar.

Quais são os KPIs essenciais para medir o desempenho real de um programa de viagens corporativas e justificar seu valor perante o departamento financeiro e a diretoria?

Os KPIs devem medir o impacto real do programa, não apenas o custo. Um indicador-chave é o valor gerado por viagem, já que nem todas as viagens contribuem da mesma forma; o desafio é avaliar o retorno e não apenas os gastos. Também é essencial medir o bem-estar do viajante como indicador estratégico, com base na confiança, satisfação e uma experiência fluida desde que sai de casa até regressar, e que também permita detetar desigualdades invisíveis entre grupos diversos. Outro KPI relevante é integrar critérios de Diversidade, Equidade e Inclusão na seleção de fornecedores, medindo a porcentagem de fornecedores que cumprem políticas DEI ou relatam suas próprias métricas. Da mesma forma, convém quantificar a adoção tecnológica pelo seu impacto real ? melhoria de processos, redução de tempos e facilitação da experiência ?, e não apenas pelo volume de usuários. Por último, o impacto da pegada de carbono deve se tornar um critério real no momento da reserva, e não ficar como um relatório posterior sem influência no comportamento. Um programa demonstra seu valor em momentos críticos, mas se consolida quando tudo funciona com fluidez.

Se pudesse falar com o seu "eu" de dez anos atrás, que conselho lhe daria hoje para ter construído um programa de viagens mais eficiente, sustentável e alinhado com os objetivos do negócio?

Eu diria: "Confie mais na sua intuição estratégica e menos na inércia do setor. Ouse desafiar políticas obsoletas, peça dados confiáveis e construa relações mais humanas com fornecedores e viajantes. Um programa de viagens é excelente quando conta com grandes alianças?.

Por fim, quais competências diferenciarão o Travel Manager médio daquele que será realmente indispensável para a sua empresa na próxima década?

Será determinante saber ler os dados e usá-los para decidir: o valor não está em revisar relatórios, mas em interpretá-los para orientar decisões que movem o negócio e agir em conformidade. Também será fundamental manejar a tecnologia com critério, escolhendo-a bem, integrando-a corretamente e alcançando melhorias reais. A isso se somará uma visão financeira prática: não basta controlar os gastos, é preciso demonstrar onde estão as oportunidades de melhoria. Igualmente importante será conectar áreas e pessoas, trabalhando com Finanças, Compras, Segurança, RH e Sustentabilidade para alinhar interesses e evitar estruturas isoladas. Além disso, deverá garantir que a comunicação chega aos viajantes e aos seus responsáveis, gerindo bem a mudança para novos procedimentos. E, num ambiente cada vez mais digital, destacará a inteligência emocional, mantendo o tratamento humano, especialmente em incidentes ou situações delicadas.