A fronteira entre as viagens de negócios e o setor MICE está a tornar-se cada vez mais difusa
A tradicional distinção entre viagens de negócios individuais e deslocações relacionadas com reuniões e eventos começa a perder sentido. As empresas procuram cada vez mais uma visão global da sua mobilidade corporativa e os fornecedores de tecnologia estão a adaptar as suas plataformas a esta nova realidade.
Um exemplo desta evolução é a aquisição da Troop, uma plataforma especializada no planeamento de reuniões e na logística de viagens de grupo, pela Spotnana, empresatecnológica especializada em viagens corporativas.
De acordo com a Skift Meetings, esta operação permitirá gerir reuniões, eventos e viagens de negócios individuais numa única infraestrutura tecnológica. Os termos financeiros do acordo não foram divulgados.
Esta operação vai além de uma simples aquisição empresarial e aponta para uma mudança na própria organização dos programas de viagens. De acordo com os dados do Business Travel Show Europe recolhidos pela Skift, mais de 60% dos profissionais de viagens corporativas e compras já têm responsabilidades tanto nas viagens como nas reuniões, contra os 50% registados em 2025.
Uma parte significativa das despesas empresariais
O interesse em integrar ambas as áreas tem uma clara dimensão económica. A Spotnana calcula que as reuniões e os eventos podem representar até 40% da despesa total com viagens de uma empresa. No entanto, tradicionalmente, esse orçamento tem sido repartido entre diferentes departamentos e ferramentas.
Assim, a escolha e a contratação do espaço podem depender de um organizador de eventos, enquanto um assistente executivo coordena os participantes, o gestor de viagens trata dos voos e hotéis e o departamento financeiro controla as despesas. O resultado é uma informação fragmentada que dificulta a obtenção de uma visão completa do custo e do retorno da atividade.
A integração das plataformas visa, precisamente, quebrar esses silos. A Troop surgiu como uma ferramenta para responder a uma pergunta fundamental em qualquer reunião: «Qual é o melhor local para reunir todos os participantes?» A partir daí, a sua tecnologia expandiu-se para gerir participantes, confirmações, agendas, orçamentos, coordenação de viagens, aprovações e relatórios.
A Spotnana fornece a infraestrutura própria das viagens corporativas: reservas e assistência ao viajante, perfis, políticas de viagem, tarifas negociadas, fornecedores preferenciais e meios de pagamento.
A combinação de ambas as tecnologias permitiria, por exemplo, selecionar o destino mais adequado para realizar uma reunião e gerir posteriormente as deslocações dos participantes no mesmo ambiente. Ao mesmo tempo, o gestor de viagens poderia visualizar essas viagens juntamente com o resto das deslocações corporativas, enquanto os departamentos de compras e finanças teriam uma visão mais completa das despesas.
Mais pressão para demonstrar o valor da viagem
A convergência ocorre, além disso, num contexto em que as empresas estão a dedicar maior atenção ao retorno dos seus investimentos em viagens e encontros presenciais.
A Skift cita um estudo da SAP Concur publicado no passado mês de junho, segundoo qual cerca de 90% dos diretores financeiros consideram necessário melhorar a forma como se demonstra a contribuição das viagens de negócios para os objetivos empresariais.
O gestor de viagens alarga o seu âmbito de atuação
Por trás desta evolução tecnológica surge também uma mudança no papel do gestor de viagens. Durante anos, as reuniões e os eventos estiveram frequentemente a cargo dos departamentos de marketing, recursos humanos, departamentos específicos de eventos ou mesmo da própria direção das empresas, enquanto os responsáveis pelas viagens se concentravam nas deslocações individuais dos colaboradores.
Mas essa divisão torna-se cada vez mais difícil de justificar quando as empresas pretendem conhecer e otimizar as suas despesas globais com mobilidade.
A mesma pessoa pode, esta semana, fazer uma viagem individual para visitar um cliente e, na semana seguinte, deslocar-se para participar numa convenção corporativa. Do ponto de vista da gestão, as fronteiras entre ambas as viagens são cada vez menos relevantes: partilham viajantes, fornecedores, políticas, dados, pagamentos e objetivos empresariais.